Sempre disse que gostava dos seus olhos escuros, nunca me atravi a olhar tão profundamente naquele par de abismos como aquele dia, num café qualquer (que eu fiz questão de fingir que esqueci). Até então, eu não havia percebido nada de errado com você, ou com a gente. Mas essa falsa impressão acabo no momento que te vi entrar.
Eu, sorri como de costume, mas desta vez você não retribuiu com uma careta-estou-me-esforçando-pra-ser-feia-mas-sou-linda-sempre. Não consegui ver seu brilho, só uma opacidade. As mãos trêmulas demonstravam um nervosismo incomum. Em silêncio, me privei de perguntar o que estava acontecendo. Eu não queria, mas sabia do presente e do futuro. Previsão certa.
Passou um tempo desde então. Não havia te procurado por pedido seu. E evitava os lugares em que houvesse a mínima possibilidade de te encontrar. Até hoje. Você na minha locadora preferida, covardia. No momento em que encontrei seus olhos, senti tanta coisa ao mesmo tempo... Uma avalanche de pensamento. De gavetas se abrindo e jogando pra fora tudo que eu guardei com muito, muito esforço, nesse tempo que passou. Tudo que guardei em vão.
Ao te ver eu senti na pele de novo tudo que aconteceu com a gente. Tudo. Naquele momento, quis falar contigo, despejar tudo isso que me atormentou durante esses meses. Tudo que eu guardei, a pedido seu. Eu quis, acima de tudo, saber o porquê. Saber porque você saltou do nosso barco e me deixou remando sozinho bem quando o vento soprava ao nosso favor. Você me largou parado na esquina dos desencontros e eu fiquei ali, sem saber pra qual caminho seguir.
Pra acrescentar, eu ainda queria te dizer tudo que eu ainda sentia. Como eu sentia falta do seu cheiro de hortelã, do jeito de se arrepiar com meu beijo na sua nuca, acabando com seu mau-humor matinal enquanto bebi Coca-Cola no café da manhã, toda esquisitinha. Dizer que me fazia falta o jeito como você encolhia os pés e encostava na minha perna quando sentia frio e como ficava linda com o cabelo desgrenhado quando estava enlouquecendo com o mundo todo por não fazer as coisas do seu jeito.
Ali, eu queria dizer que te amava, ainda. E no momento que você sorrisse pra mim, em resposta a tudo isso que ouviria, eu te roubaria do resto do mundo deixando bem claro que não te faria a pessoa mais feliz do mundo, mas que eu seria o cara mais esforçado tentando te fazer feliz, apenas.
Em poucos segundos, eu quis te falar tanta coisa, mas... Não. Eu sorri pra você, você sorriu de volta (creio eu apenas pra mostrar que sua mãe lhe educou muito bem). Eu, segui andando, fingindo que te ver não fez a mínima diferença no meu dia, quando na verdade me virou de ponta cabeça.
E, adivinha? Você estava mais linda do que nunca.
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